Era o ano de 1984…

Era o ano de 1984, mais precisamente novembro. Minha família resolveu mudar do oeste para a capital catarinense, começava aí uma grande aventura. Eu era um adolescente de 15 anos, que da vida sabia pouco, e muito menos podia imaginar os caminhos que iria trilhar.

 

Sexta à noite, meu primeiro final de semana na cidade, fui com amigos da família dar uma volta na cidade. A Beira Mar era o destino naquela época, onde bares como Vagão, Cantina di Rose e boates como Dizzy, Shampoo, Baturité eram locais dos jovens da cidade. Mas minha noite começou num lugar que se tornou meu point e de muitos amigos meus. Antes e depois das noites na ilha da magia, esse local se chamava Kay’skidum.

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Meu primeiro lanche e que depois passaria ser meu pedido tradicional foi o X-Bacon. Fui fiel nesses trinta anos, até tentei mudar para o X-Mignon, às vezes um crepe, mas sempre voltava para a origem. Ele é da época que o hambúrguer não era esnobe, não era gourmet. Sim ele mudou de nome com o tempo, em homenagem aos tradicionais frequentadores, ele passou se chamar X-Bacon das Antigas. Ser das Antigas era como pertencer a uma confraria e que só alguns sabiam a senha de acesso. Ainda sinto em minhas papilas o sabor dele, sentado num banquinho de madeira, que hoje precisaria de EPI (equipamento de proteção individual) para usá-lo. Foi indescritível.

Aquele trailer simples contrastava com a beira mar, com os carros dos playboys, era o local do esquenta. Naquele meio fio  sentaram pessoas que hoje são médicos, engenheiros, políticos, advogados e que como eu, lembram com muito saudosismo daqueles finais de semana.

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Como esquecer as figurinhas carimbadas? O Adolar, prefeito do Kay’skidum, conhecia todo mundo e os que ele não conhecia, iria conhecer. O Baixinho e seu chevetinho prata, que passava a noite encostado no muro. O nosso astro de Hollywood Mane Max, agradeçam a ele por existir a saga do Mad Max, deve ter assistido mais de vinte vezes o filme só no seu lançamento e cuidava com preciosidade dos seus carros. Os irmãos Silvestre e seu Chevette branco, esses merecem um parágrafo a parte.

Conheci a dupla num sábado de manhã. Fui com o embaixador Seco, na oficina deles, para rebaixar o meu Fiat Spazio. Eles estavam com uma ressaca danada e mau humor de italiano. A partir desse dia, esses grandes amigos entraram em minha vida. Foram muitas histórias naquela oficina. Vale lembrar que o Chevette branco dos irmãos era muito amigo do meio fio, porque quando o "cavalo de pau" não dava certo, era o beijo dele que recebiam.

No Kay’skidum você não tinha sobrenome, mas era conhecido por associação. Era o Andre do Opala da Vó, o Cabeça da Parati, o primeiro a ter carro automático, porque aquela Parati não trocava de marcha, só na primeira, o Sandro da Marajó, Paulinho Etiqueta e seu Voyage, o Gaúcho do Gol Verde, famoso Bita, sua frase memorável, eu te amo, te adoro, você é tudo para mim, tudo isso após uma garrafa de Passport. Foram muitos personagens que marcaram um tempo que relembro com saudade.

O Kay’skidum era o nosso Whatsapp. Lá a gente se reunia para começar a noite, que podia ser uma ida a Balneário Camboriú, ir ao Érico da Lagoa, ou na Creperia do Francês da Lagoa. Os frequentadores tinham uma paixão em comum, carro mexido, rebaixado, veloz. Claro que uma Brasília não seria um carro muito rápido nos dias de hoje, mas incomodava um fusca. Lá que as novidades chegavam primeiro, carro turbo, película que era conhecida com Insulfilm, Tojo, toca fita Pioneer vindo do Paraguai.

Foram muitas histórias nesse nosso playground, teve corrida de estepe, busca da teoria da velocidade no Rio Vermelho, carreata para Oktoberfest. Era um tempo onde o relógio corria em compasso de espera, sem pressões da vida moderna, de carros lavados em casa com grupo de amigos, churrasco para assistir Fórmula 1.

Mas falar do Kay’skidum e não falar de seu Lair Ribeiro seria contar um pedaço só da história. O homem que sempre tinha estampado em seu rosto um sorriso, uma frase de efeito. Chegava em sua moto 125, que parecia ter saído do pátio do DETRAN. Sem pezinho, ela ficava encostada no muro como uma bicicleta, bateria era artigo de luxo, mas nada como bom tranco para pegar, e sempre com sua expressão famosa, “Beleza”.

O amigo Beleza assistia todas essas comédias da vida de camarote, foram flagras de casais mais afoitos assistindo corrida de submarino que esqueciam a sinaleira ligada. Um apaixonado por cavalos e carruagens, era conselheiro espiritual e amoroso, era o nosso Guru, você nunca iria triste para casa após alguns minutos com o Beleza. Nas noites de paquera, ele era o italiano no filme A Dama e o Vagabundo, ajudava a transformar um simples sanduba, num jantar em Paris.

 

Adeus, Kayskidum do Diário Catarinense - vídeo fantástico sobre o lugar e um de seus memoráveis colaboradores.

 

 

Durante seus quarenta anos o Kay’skidum também fez cirurgia plástica como suas frequentadoras, algumas aplicações de botox, o simples trailer passou para uma construção de tijolo à vista, com caixa para fazer pedido e tudo, o pessoal das Antigas ia por trás e pediam direto para o Beto.

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Beto comandou a aventura do Kay’skidum fora da ilha, mais precisamente no Kobrassol. Foram chegando outras propostas de lanche na ilha, e o Kay’skidum foi se modernizando, passou a ser encontro da turma do futebol, das famílias que se formaram daquela turma de 71 como diria Dazaranha, os carros rebaixados foram dando espaço para as cadeirinhas de bebê.

O Kay’skidum era mais que uma casa de lanche, era patrimônio da cidade, o saudosismo sempre bate na minha turma quando relembramos essa época, sem parecer piegas “sinto falta di ti mo querido”.

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Colunista: WHEELS

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